Saúde Mental  


A saúde mental constitui um pilar essencial do bem-estar humano, exercendo influência direta sobre nossos pensamentos, emoções e comportamentos. Os cuidados com a saúde mental nunca foram tão importantes, sendo indispensáveis para o enfrentamento adequado do estresse, a manutenção de vínculos interpessoais saudáveis e a tomada de decisões conscientes. Além disso, impacta de forma significativa na saúde física, na capacidade produtiva (funcionalidade) e na qualidade de vida. O cuidado contínuo da mente e do corpo representa uma estratégia preventiva contra transtornos como ansiedade e depressão, uma vez que a psiquiatria é uma ponte suspensa entre dois mundos: de um lado, o território da mente e do cérebro, explorado pela neurologia e pela neurociência; de outro, o vasto horizonte das ideias e das relações humanas, iluminado pela filosofia e pela sociologia. 

O modelo biopsicossocial criado em 1977 entende a saúde como resultado da interação entre três aspectos fundamentais: BIOLÓGICOS, PSICOLÓGICOS e SOCIAIS. Diferente da visão biomédica, que foca primariamente na doença, essa abordagem amplia o olhar para o paciente de forma mais integral, promovendo assim um cuidado mais amplo e mais humanizado. 

Se um quarto fator - a espiritualidade - se incorporar à nova visão de saúde mental da perspectiva da totalidade - o estado de ser completo - então poderemos chamar o modelo de Biopsicossocial e Espiritual. A Espiritualidade seria o quarto elemento acrescentado à tríade criada por pelo médico George L. Eugen.  Neste sentido, não podemos simplesmente ignorar a força compensatória e autorreguladora da experiência religiosa genuína que também pode trazer conforto e equilíbrio ao indivíduo, uma sustentação contra as principais questões existenciais do viver. Afinal de contas, a espiritualidade é outro aspecto inerente à alma humana, segundo Carl Gustav Jung. Para ele, espiritualidade é uma postura psicológica diante do mistério da vida, ou dito de outra forma, o caminho espiritual é o processo de se tornar quem você realmente é - uma estrutura da psiquê que ele chamou de Self.

Assim, a espiritualidade não é apenas racional; é também irracional e sua linguagem é Simbólica.


Mas há sempre riscos que envolvem as religiões quanto à tendência ao fundamentalismo, unilateralismo e consequentemente a exclusão de pessoas (minorias), pois algumas idéias, sistemas de valor e juízos  "tradicionais" também podem prejudicar quanto ao que chamamos de "crenças errôneas", disfuncionais ou limitantes. Estas são características de fortes opiniões profundamente  enraizadas que o indivíduo desenvolve em relação a si mesmo, aos outros e ao mundo. Uma visão de mundo que dificilmente muda, mas não podemos jamais esquecer que saúde mental é sinônimo de FLEXIBILIDADE - o contrário de certas convicções. A medida que envelhecemos, tendemos a nos tornar mais rígidos quanto às mudanças, não somente de ideias.  

Essas estruturas cognitivas (pensamentos) podem muitas vezes funcionar como filtros interpretativos tendenciosos, promovendo percepções distorcidas da realidade, o que acaba alimentando e perpetuando padrões comportamentais desadaptativos. E muitos deles podem até passar despercebidos, isto é, considerados comportamentos "normais", como por exemplo o excesso de atividades - a compulsão por estar sempre ocupado. Nos EUA, são chamados de workaholics, mas pouco se comenta sobre os "viciados em trabalho" e suas consequências. E as causas? Menos ainda.

Na Psicologia Analítica a espiritualidade é entendida como uma dimensão essencial da psique humana, não limitada à religião, mas ligada à busca de sentido, conexão e totalidade. Jung via a espiritualidade como uma função natural da mente, expressa por símbolos, sonhos e arquétipos, e como parte central do processo de individuação. Para compreender melhor esse fenômeno, o estudo das religiões comparadas era parte essencial de suas investigações. Contudo, é comum pensarmos que só a espiritualidade ou a racionalidade nos completa, deixando de lado outras dimensões igualmente importantes da nossa existência. Jung argumenta que a ciência moderna tende a privilegiar apenas o que é racional e mensurável, excluindo outras formas de conhecimento - a era do racionalismo. A noção de que "somos um só" expressa a ideia espiritual de que toda a realidade está interligada e forma uma única unidade essencial.

Estamos, infelizmente, nos desconectando da nossa natureza destruíndo-a, sem pensar nas suas consequências. Desmatar, poluir, e consumir os recursos naturais a todo direito - como por exemplo a água - está aumentando, a cada ano, a temperatura do planeta e isso está diretamente relacionado com a nossa saúde mental.   

 

Negligenciar a espiritualidade pode prejudicar o cuidado (a "cura") integral, a saúde como um todo, pois todas as dimensões estão profundamente conectadas. Outro risco a se levar em conta é justamente o seu contrário: o fanatismo religioso, que para Jung indica um sinal de desequilíbrio interno -  não de verdadeira religiosidade ou espiritualidade genuína. Ele entendia o fanatismo como uma deformação da função religiosa, que é essencialmente natural e saudável na psique humana.

Essa interpretação aparece em estudos sobre sua obra, que destacam a diferença entre religiosidade autêntica e adesão dogmática inflexível. 

Neste sentido, o alcoolismo, o fanatismo político, a busca desenfreada pelo sucesso/felicidade - ou qualquer outra forma de obstinação - pode sim funcionar como uma forma distorcida de "religião" — uma tentativa inconsciente de alcançar transcendência, pertencimento e sentido pra vida. Uma espécie de COMPENSAÇÃO para uma DOR interna, ou de Vazio Existencial.




Fonte: Internet


Aceitar um tratamento, seja ele qual for, desde que bem indicado por profissional experiente, muitas vezes exige modéstia, embora possa ser - em algumas circunstâncias - um direito do enfermo de negá-lo. Neste caso, leva-se em consideração uma série de variáveis e por isso é complexo.   


Em suma, a saúde mental está diretamente conectada com a saúde do corpo, da mente e da alma, assim como com as questões relacionadas ao meio ambiente em que vivemos, que aliás são inúmeras e estão se moificando numa velocidade nunca antes vista, nos últimos anos. As Mudanças Tecnológicas que se desenvolvem de maneira tão acelerada, a supervalorização do Pensamento - em detrimento ao Sentimento - e o Capitalismo Selvagem (O consumo desesnfreado), nos trazem e nos trarão consequências que já se fazem notar, principalmente nos desconectando de nossas raízes. O homem transforma o meio ambiente através de suas ações - mudanças climáticas, internet (Inteligência Artificial), ambiente familiar, condições de trabalho, desigualdades sociais -  e este reage, modificando-o. As epidemias, o aumento dos transtornos mentais (e outras doenças) a infantilização dos jovens e os eventos climáticos extremos, são apenas alguns exemplos dessas decorrências. 


As condições biológicas e químicas do cérebro afetam o modo como pensamos, e nossos pensamentos, por sua vez, também modificam o cérebro. É uma via de mão dupla.  

Até o que alimentamos afeta nosso cérebro - um exemplo típico é a famosa DIETA CETOGÊNICA e seus efeitos tão benéficos pra saúde - principalmente mental e neurológica (controle das epilepsias). 

O cérebro é portanto um sistema complexo com cerca de 86 bilhões de neurônios que se comunicam tanto de forma química (Neurotransmissores) como elétrica. O cérebro é um órgão antes de mais nada Eletrotroquímico. Em 6 de julho de 1924 o psiquiatra alemão Hans Berger conseguiu registrar os primeiros sinais elétricos do cérebro humano usando um galvanômetro, e por isso é considerado o criador do Eletroencefalograma (EEG).



OS SETE PECADOS CAPITAIS


No século IV o monge grego Evágrio do ponto (Evágrio Pôntico) foi para o deserto e lá criou uma lista de oito "transgressões" universais que poderiam afastar todo ser humano do divino: 

Vaidade; Luxúria; Avareza; Melancolia; Ira; Orgulho, Gula e Acídia - estado de profundo desânimo, apatia e preguiça espiritual.  

Dois séculos depois, o papa Gregório Magno decidiu simplificar esta doutrina fundindo a Vaidade com a Soberba e a Melancolia com a Acídia, transformada posteriormente no conceito de Preguiça. Assim surgiu a lista oficial dos sete pecados capitais que conhecemos hoje: Soberba, Avareza, Inveja, Ira, Luxúria, Gula e Preguiça.

Mas será que é por isso que ainda tem muita gente que acha que depressão é preguiça?



Abaixo segue alguns exemplos de pensamentos enviesados e tendenciosos que podem prejudicar quem está sofrendo:

 

"Quem tem Deus no coração não tem tempo pra ter depressão..." ou

"Você está tão triste e desiludido assim é porque ainda não se casou. Arrume um namorado uai...." ou

"Depressão ? ansiedade ? Pânico ? É tudo fraqueza de espírito...falta do que fazer. Tem que ter força de vontade..."

"Depressão é frescura....ela nunca me pegou e nunca me pegará...."

"Eu sou contra todo tipo de remédio...até quando eu estou com dor de cabeça eu não tomo remédio. Pego umas plantas lá no meu quintal e faço um chá...."


E por mais paradoxal que seja, uma família pode até atrapalhar nestes momentos:


"Existe uma contradição que se estabelece nesses quadros. A família vê a pessoa nesse estado e quer que reaja, mas ela não consegue e os familiares se voltam contra o deprimido. Isso é regra? "


" Essa é uma armadilha em que caem as famílias e o deprimido porque, esgotadas todas as tentativas para estimulá-lo, surge a raiva: “Ele não reage; Eu tento, mas ele não quer melhorar". Tal comportamento reforça a desesperança e a baixa autoestima, próprio do indivíduo com depressão. Por isso, é importante familiar e paciente que essa incapacidade de ocorrência é uma das características da doença e ajuda a diferenciar o estado patológico do normal".

(Entrevista com o psiquiatra Roberto Moreno - Depressão UOL)

 




Enquanto a vida transcorre de maneira estável e presumível a necessidade de espiriritualidade, e de religião, pode passar despercebida. Contudo, diante do sofrimento, essa ausência torna-se evidente e transforma-se em  busca pelo divino. Principalmente quando estamos passando por algum tipo de dor ou sofrimento, seja emocional, existencial ou físico - neste caso, especialmente aqueles que se apresentam como enfermidades irreversíveis e/ou imprevisíveis.

O acaso, a incerteza e o impoderável são outros aspectos inerentes à vida humana, mas que fazemos toda questão de não lembrar, ou melhor, preferimos permanecer inconscientes do que conscientes - vivendo no automático. É mais fácil seguir o fluxo. A expansão da consciência e o seu desenvolvimento constitui um dos elementos fundamentais da saúde mental e isso implica responsabilidade pelos nossos próprios atos e a aceitação daquilo que não podemos mudar - daquilo que está fora do nosso controle.


"Quando nada é certo, permanecemos alertas, sempre atentos.

É mais emocionante não saber por trás de qual arbusto o coelho está escondido do que se comportar como se soubéssemos de tudo"  (Viagem a Ixtlan - Carlos Castaneda)


Eis um exemplo da relatividade dos fatos:

Dona Maria (nome fictício) não gostou e saiu zangada depois de ouvir da endocrinologista que estava com diabetes avançado e dessa forma não poderia mais comer doces. No entanto, de forma escondida dos filhos, dava dinheiro para os netos comprarem quindim na padaria da esquina. Mas tinha uma condição: os netos tinham que guardar segredo, pois um dos filhos era médico e se soubesse, ficaria enfurecido ao saber que sua querida mãe estava fazendo algo que iria, provavelmente, encurtar seu tempo de vida e trazer outras consequências delérias para sua saúde. 

Não podermos escapar das escolhas, somos totalmente responsáveis por nossas ações e por quem nos tornamos.

Toda escolha é inevitável e pressupõe uma exclusão. Se opto ir por um caminho, abro mão de todos os outros e até mesmo uma omissão - ficar em cima do muro ou não querer escolher  - também é uma forma de decisão, com todas as consequências de uma escolha. De qualquer forma, "estamos condenados a ser livres" (Jean Paul Sartre).




 

(Fonte: Internet)


Quatro sombras - preocupações existenciais - acompanham cada ser humano: a Morte, que nos lembra da Finitude; a Liberdade, que nos entrega o Peso das Escolhas; o Isolamento, que revela a Solidão Essencial da existência; e a Falta de Sentido, que nos desafia a criar Propósito (Objetivo). Esses abismos interiores, descritos por Irvin Yalom, são como rios e trechos que correm sob a vida, moldando nossos medos, valores e a forma como caminhamos pelo mundo. É no confronto com esses quatro princípios fundamentais - que nasce tanto a angústia quanto a possibilidade de uma vida autêntica e profunda - de Autoconhecimento. Uma vida vivida no presente e no agora.



É POSSÍVEL MUDAR?



"Quando a dor de não estar vivendo

for maior do que o medo da mudança, 

a pessoa muda"

                    (Sigmund Freud)


Tanto as pessoas que acham que é fácil mudar, como aquelas que julgam que é impossível, estão equivocadas. Mudar é possível, ainda que seja uma tarefa árdua e difícil, e que muitas vezes exija renúncias e despedidas.

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